"Em certas alturas somos verdadeiramente levados a acreditar que toda esta vida não é uma exaltação dos sentidos, de uma miragem, de um equívoco da imaginação, mas sim de algo real, autêntico, existente!".
(Dostoiévski, Noites Brancas)

.

domingo, 21 de agosto de 2011

Nós três




Para mim, o amor é um mistério, mas as mulheres não. Basta deseja-las que eu já as tenho em meus braços. Não por ser portador de uma beleza infinita, mas por simplesmente entendê-las. Acontece que Ela entorpeceu meu coração. Saí com outras, mas na verdade só amei a Ela.
Enquanto estávamos juntos, todos os problemas pareciam não existir. Andávamos de mãos dadas e Ela gostava do lado direito de tudo, da cama, da calçada e do peito. Mania que me deixava louco, louco de paixão. Conversávamos futilidades, mas Ela às transformava em poesia.

Sempre tive certeza da força do amor que existia entre nós. Tudo parecia funcionar com perfeição. Um dia casaríamos e seríamos amantes e companheiros na melhor idade. Mas Ela me deixou e hoje não sou o mesmo. Sou menor.

Os problemas parecem maiores do que o tempo que tenho para resolvê-los e meu corpo não aguenta mais a alma. De repente, só vivo do que Ela deixou. Só que Ela não deixou nada além de saudades.

O que me apavorou por muito tempo foi a ideia de nunca saber os motivos. Os porquês são como um câncer. Gostaria de ter ouvido “eu não te amo mais”, “você não serve para mim” ou “encontrei alguém melhor”, qualquer coisa me causaria menos sofrimentos do que o silêncio e a indiferença.

Todo dia, antes de dormir, de tomar banho, de comer ou de respirar, eu me torturava com as mesmas perguntas: Será que falei algo que não deveria? Mas isso parece tão pouco. E se a culpa foi minha? E se não? E se? Não sei! Mas Ela me deixou. Ela me deixou!

Na porta de sua casa, Ela me disse adeus, beijou minha face e me disse adeus. Não olhou para trás... Minha face, Ela beijou e não voltou, não voltou aquele olhar para mim, não voltou nunca mais para mim.

A última vez que a vi, Ela estava mais linda do que nunca. Estava esplêndida. Senti que aquele era o momento para descobrir o motivo do abandono. Aproximei-me, mas alguém chegou antes. Uma mulher segurou sua mão, beijou a boca que um dia foi minha e levou Ela de mim. Foram embora deixando um homem para trás, um homem ferido e inerte.

Hoje, Ela e a Outra não saem da minha cabeça, do meu coração, das entranhas da minha alma. São agora para mim como um sopro de vida. Preciso tê-las. Todos os dias, sozinho, imagino estar dividindo a mesa, a escova, a toalha e a cama com aqueles dois corpos, aqueles dois espíritos sedutores. O pouco que Ela não tem, a Outra possui e faz desse pouco muito mais do se pode imaginar. 

Na minha cabeça somos três: Eu, Ela e a Outra. Mas para elas são só as duas e eu sou só ninguém. Senhor, eu sei, não é certo duas mulheres se amarem... Se amarem assim. Se amarem sozinhas, se amarem sem mim!

2 comentários:

  1. Meus parabéns pelo post, confesso que fiquei muito surpreso com o final, muito inteligente o texto. :)
    Fui o primeiro a comentar la la la la

    ResponderExcluir
  2. Um amigo meu disse ter se 'identificado'=x

    Que bom que te surpreendi! Ah, vc foi o primeiro sim, o povo gosta mais de comentar no facebook =/

    Vlw pela visita (e pelo comentário)!

    ResponderExcluir