"Em certas alturas somos verdadeiramente levados a acreditar que toda esta vida não é uma exaltação dos sentidos, de uma miragem, de um equívoco da imaginação, mas sim de algo real, autêntico, existente!".
(Dostoiévski, Noites Brancas)

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domingo, 28 de agosto de 2011

Quem eu sou




Hoje eu vou falar de mim. Não costumo fazer esse tipo de coisa. Mas hoje eu quero falar de mim! Crise de amor-próprio? Revolta egocêntrica? Individualismo? O mal do século me atingiu? Bom, talvez, mas hoje eu preciso falar de mim... Eu devo, eu quero, eu posso e vou falar de mim!

Sempre que paro pra refletir sobre o que sou, penso primeiro sobre o que é ‘ser’. Daí já sabe... Acabo me entregando a uma filosofia muito louca (redundância, eu sei) que envolve existência, vida e amor. Talvez alguns de vocês já tenham realizado o mesmo raciocínio que eu. Outros podem até desconsiderá-lo como tal. Vou tentar descomplicar algumas ideias e deixarei outras nas entrelinhas. Jogarei algumas perguntas. Tentarei manter as palavras conectadas. Só.

Mas, o que eu sou?

Para a biologia eu sou orgânica, células ósseas, musculares, adiposas, sanguíneas, nervosas. Para a sociologia eu sou um ser social. Para a história eu sou hoje por causa de ontem e para a literatura eu sou conterrânea de Graciliano Ramos. Para a geografia eu faço parte de um quadro populacional, habito determinada área de temperatura tal e resido em uma cidade litorânea. Para a matemática, eu sou um problema.

Sobre a verdade dessas ciências ou das várias religiões: eu hesito sobre muitas, me interrogo sobre tantas e não acredito em boa parte! Gosto daquilo que questiona e duvido de tudo que impõe a verdade.

Verdade é conformidade com a realidade? Realidade é o que existe efetivamente? Existir é durar, subsistir, manter-se vivo, vigorar? Estar vivo é habitar, experimentar, conviver, dedicar-se, sentir a fundo? Não sei! Viver para mim é inexplicável. Eu não sei ilustrar a vida, não sei desenhá-la ou redigi-la. Sei que vivo, que sinto, que sou.

“Penso, logo existo”. Sim, eu penso. Existir? Talvez, em alguns lugares, em determinadas pessoas, em certas palavras, ou em quaisquer lembranças.

Sim, mas quem eu sou?

Sem querer fazer apologia àquela canção, mas posso dizer que eu sou a tinta que dá corpo às minhas palavras, sou a morte que me comove, as lágrimas que derramo e o sorriso que dou. Sou aquele que me ama e, antes de tudo, sou aquele e aquilo que amo. Sou também os que não amo, mas que adoram aos que me tem amor. Sou meu deus e meu diabo, meu bem e meu mal. Sou minha fé e a falta dela. Sou meu livro favorito, a canção que me faz arrepiar os pelos dos braços e o filme que me faz chorar de tanto rir. Sou você que lê minhas palavras.

Mas para aqueles que amo, quem eu sou? Sim, para aqueles que eu amo! No começo, no meio e no fim, é o que importa. Espero ser para eles o que eles são para mim: a própria vida.

domingo, 21 de agosto de 2011

Nós três




Para mim, o amor é um mistério, mas as mulheres não. Basta deseja-las que eu já as tenho em meus braços. Não por ser portador de uma beleza infinita, mas por simplesmente entendê-las. Acontece que Ela entorpeceu meu coração. Saí com outras, mas na verdade só amei a Ela.
Enquanto estávamos juntos, todos os problemas pareciam não existir. Andávamos de mãos dadas e Ela gostava do lado direito de tudo, da cama, da calçada e do peito. Mania que me deixava louco, louco de paixão. Conversávamos futilidades, mas Ela às transformava em poesia.

Sempre tive certeza da força do amor que existia entre nós. Tudo parecia funcionar com perfeição. Um dia casaríamos e seríamos amantes e companheiros na melhor idade. Mas Ela me deixou e hoje não sou o mesmo. Sou menor.

Os problemas parecem maiores do que o tempo que tenho para resolvê-los e meu corpo não aguenta mais a alma. De repente, só vivo do que Ela deixou. Só que Ela não deixou nada além de saudades.

O que me apavorou por muito tempo foi a ideia de nunca saber os motivos. Os porquês são como um câncer. Gostaria de ter ouvido “eu não te amo mais”, “você não serve para mim” ou “encontrei alguém melhor”, qualquer coisa me causaria menos sofrimentos do que o silêncio e a indiferença.

Todo dia, antes de dormir, de tomar banho, de comer ou de respirar, eu me torturava com as mesmas perguntas: Será que falei algo que não deveria? Mas isso parece tão pouco. E se a culpa foi minha? E se não? E se? Não sei! Mas Ela me deixou. Ela me deixou!

Na porta de sua casa, Ela me disse adeus, beijou minha face e me disse adeus. Não olhou para trás... Minha face, Ela beijou e não voltou, não voltou aquele olhar para mim, não voltou nunca mais para mim.

A última vez que a vi, Ela estava mais linda do que nunca. Estava esplêndida. Senti que aquele era o momento para descobrir o motivo do abandono. Aproximei-me, mas alguém chegou antes. Uma mulher segurou sua mão, beijou a boca que um dia foi minha e levou Ela de mim. Foram embora deixando um homem para trás, um homem ferido e inerte.

Hoje, Ela e a Outra não saem da minha cabeça, do meu coração, das entranhas da minha alma. São agora para mim como um sopro de vida. Preciso tê-las. Todos os dias, sozinho, imagino estar dividindo a mesa, a escova, a toalha e a cama com aqueles dois corpos, aqueles dois espíritos sedutores. O pouco que Ela não tem, a Outra possui e faz desse pouco muito mais do se pode imaginar. 

Na minha cabeça somos três: Eu, Ela e a Outra. Mas para elas são só as duas e eu sou só ninguém. Senhor, eu sei, não é certo duas mulheres se amarem... Se amarem assim. Se amarem sozinhas, se amarem sem mim!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Amor, mãos e liberdade




Eu não te amava quando disse pela primeira vez “eu te amo”, nem pela segunda ou terceira. Passei algum tempo para entender o real significado dessa frase. Às vezes me pegava te olhando, concentrada principalmente em tuas mãos. As unhas limpas e a pele fina faziam meus lábios queimarem. Adorava quando tuas digitais me tocavam com firmeza, mas achava estranho quando tentavas preencher um espaço que esteve por muito tempo vazio.

        Com tantas mãos a serem abraçadas pelas tuas, por que as minhas tão frias e inexperientes? Poucos dedos se entrelaçaram aos meus, tu bem sabes. Para ser sincera, isso de segurar mãos sempre me incomodou. Lembro quando os adultos apertavam minhas falanges para que eu atravessasse a rua com segurança. Liberdade era o que eu mais desejava nessas horas! Queria correr o risco, entende? Os jovens são corajosos e precisam conhecer os caminhos da vida para que se defendam das futuras desgraças. Mas um dia crescemos e procuramos em outros a proteção que antes nos era ofertada por nossos pais. Ficamos cautelosos com o passar das estações.

        Todas as responsabilidades conquistadas por minha rebeldia me tornaram uma pessoa temerosa, sensível e insegura. Desde que tomei consciência da fraqueza que eu costumava não reconhecer e do quanto todos nós estamos vulneráveis às desventuras da existência, te amei. Tua proteção, teu aconchego, as palavras de consolo, as atitudes admiráveis, teu modo de levar a vida, tudo que eu precisava em mim residia em outra pessoa. Entreguei minha liberdade em tuas mãos e em troca pedi cada segundo do teu tempo. Abri mão do escudo frio que me resguardava e da racionalidade que não me deixava tirar os pés do chão. Por medo, me entreguei ao amor.

        Percebo hoje que te roubei aquilo que mais apreciava. Tirei a tua liberdade e compreendi que da minha tu nunca fizeste questão. Prendi teu carpo e metacarpo aos meus para que não pudesses dar um passo para frente ou para trás sem que eu estivesse lá. Esqueci que o vazio de uma mão é agradável quando esta se sente sufocada por outra. Seus poros e digitais desejam desesperadamente o ar. E é assim também com a boca, com os seios, a cabeça e os pés.

        Lembrei dos momentos em que meus pais resolviam me libertar de suas algemas por alguns instantes; era com prazer que eu retornava. E assim sucederá contigo também. Tenhas calma, espera só mais um pouco... Meus dedos estão enfraquecendo, sinto incomodar os calos e o sangue que escorre da tua palma faz deslizar a minha.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vida Minha & ahniM adiV (Universos Paralelos)

 

Quem me vê assim pensa que eu sou só, que só sou eu. Quem sabe eu viva além desse lugar? Passeando por outras esquinas, morando noutra cidade, palavreando outros blábláblás. Quem sabe eu esteja gritando o que nunca consegui gritar, sonhando o que um dia deixei de imaginar, amando a quem nunca pude tocar e que desconheço totalmente a existência. Quem sabe eu veja cores que meus olhos jamais se permitiram enxergar. Quem sabe o "eu-terceira-pessoa-do-singular" nunca tenha sequer pronunciado um "quem sabe" em toda sua vida.

Talvez eu esteja lá, tomando um conhaque, ouvindo uma sinfonia, vivendo um inverno doloroso, chorando na madrugada vazia pela morte de um amor decoroso assassinado pelas circunstâncias. Talvez o tempo não seja o mesmo, talvez eu viva enquanto ela morre ou talvez ela viva enquanto aos poucos eu vou morrendo... Com o coração fraco e uma cabeça forte, a vida vazia e uma mente em choque, buscando algo, mas transbordando de abulia. Perdendo o caminho, achando a perdição, esquecendo-se de olhar pros lados, trombando com a aflição.

Só sei que ela vibra quando se sente querida, ama sem medida, e brinda a simplicidade da vida; vive momentos angustiantes quando as palavras não conseguem falar, morre de raiva por ser contrariada. Até consigo vê-la, cansada, no cume da madrugada, escrevendo palavras atrapalhadas para tentar entendê-la e no fim, arruinada, dizer nada com nada por não conhecê-la. Entende, portanto, que a outra vida não é pior nem melhor que essa, apenas permanece, insiste, ou quem sebe, até mesmo, desiste.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Maria



E agora,
A Felicidade existe?
Você tropeça
Tão linda,
Quase sem vida.
Reza pr’um santo,
E quem sabe um dia...
A força divina,
Quem sabe Maria?

E a Nuvem?
No céu, tão leve e lívida,
Sequer amortece tua queda,
Querida?
Não, ela está acima,
Acima, Maria!
Cheia de fartura,
Ignora a dureza da estrada lisa,
Dissimuladamente lisa,
E do Asfalto na tua vida sem vida,
Minha menina.

Maldita!
Falo da Nuvem,
Da Nuvem...
E não da vida,
Minha querida.

Ela de cima
Te observa,
Mas despreza
A tua humanidade,
Te cega,
Com o corpo encobre tua vista,
Ilude com formas desmedidas.

Tu,
Que és mais osso que carne,
Não resistes nem a lei da gravidade,
E coleciona feridas.

Maldita!

Agora não falo da Nuvem,
Maria,
Falo da Lei.

A Lei te derruba
Menina,
E quem está em cima não se compadece,
Te esquece
E enriquece,
Te empobrece
E você apodrece
Dia
Após
Dia,


  Sozinha.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

“Enquanto houver sol...”

             
Verão, temporada da veemência? Não sabia dizer, mas cultivava a certeza de que os raios solares do início de uma tarde de verão certamente queimam sem nenhuma misericórdia a fronte pálida de uma cabeça turbulenta: a dela! Pobre são as almas de cabeça exposta que transitam no estio.

Os carros passavam tranquilos enquanto ela, atrasada, corria, tropeçava, falava mal e transpirava muito. A preguiça clássica havia vencido novamente, como um exemplo de lassidão que faz com que você retarde todos os passos para que em seguida a sua consciência, sempre tão fiel, esfregue na sua cara que a hora de pôr os pés no mundo já passou há algum tempo. Mas por acaso o transporte cotidiano chegou - outro dia ela comentou esse fato como sendo um milagre e assegurou que não acreditava neles. Ofegante, as palavras não saiam, sentou-se e aquele mesmo sol abrasador fez-se companheiro até a chegada do tão invariável destino.

Sempre achou espantoso como a sorte dá uma de esquecida quando o assunto é presenteá-la com um lugar à sombra. Na cadeira vizinha estava sua amiga, aquela que costuma sempre trazer um sorriso afável. Mas naquele dia sorrir não fazia sentido algum, sobretudo com sinceridade. Era notório que o coração da amiga abrigava uma ferida recente e o motivo era claro: uma pessoa conhecida havia falecido. Temeu aquele encontro desde que saiu de casa, pois não desejava vê-la triste e sentia muito por nunca conseguir expressar os pêsames como gostaria - sempre se exprime como uma insensível da pior marca, tão miserável que é.

Na manhã anterior uma vida havia chegado ao fim, e o mais calamitoso: uma vida indesejada por quem a possuía, arrebatada violentamente com uma corda, uma simples corda. Logo após receber a notícia daquele fato melancólico, pôs-se a pensar, e depois de alguns minutos, quem sabe até mesmo segundos, rebentou em seu juízo uma idéia atormentadora: o suicídio na cidade não soava mais como uma lenda. E o mais curioso é que as pessoas parecem bem e no dia seguinte, tão somente, decidem descartar qualquer oportunidade de arriscar novamente, de sentir a dor e em seguida o tão esperado alívio, lançam mão de uma segunda, terceira, quarta ou quinta chance. Ela, que muitos julgavam pessimista, segurava-se docilmente em um fio de esperança. Um fio bastante forte na realidade.

Olhando pela janela percebeu o quanto aquele garoto havia desperdiçado. Mas imediatamente surpreendeu-se com uma interrogação que germinava muitas ulteriores: será? Será mesmo que o mundo que ela vê lá fora é o mesmo que ele enxergava enquanto vivo? Será que o que lhe parece bonito e atraente para o garoto não passava de mais cores, gestos, sons e seres que o aborreciam ou eram indiferentes para ele, ou pior, indiferentes a ele? Será que para aquele menino o mais agradável seria uma pedra: sem vivacidade, acinzentada e desprovida de movimentos? Ausência de respiração, ausência de dor, ausência de sentimentos excessivamente humanos... Talvez ele sentisse tão profundamente a ponto de concluir que não deveria mais sentir, estando saturado da impassibilidade que as pessoas, assim também como as coisas, mostravam perante a suscetibilidade dele.

Então ela, criatura de imaginação intensa, armou uma situação ilusória: fantasiou aquele suicida como que permanecendo teimosamente em uma festa. Na festa havia música, mas ele não conseguia ouvir, comida e bebida, mas ele não sentia sede nem fome. Enxergou com os olhos dele as pessoas que estavam ali e que passavam como vultos velozes, dançantes e sutis, enquanto ele sequer sentia vontade de levantar. Chegou a vê-lo saindo da festa pela porta de trás e sem olhar para frente, para nunca mais precisar voltar naquele lugar de novo. Percebeu então que aquilo era claramente mais uma metáfora criada por ela, insensível como sempre, sobre a vida e a morte de uma pessoa que merecia respeito de sua parte por ser um grande amigo de uma grande amiga. Empalideceu com esse pensamento e a consciência, tão fiel quanto ela é insensível, pesou.

Estimulou-se a pensar que mesmo a vida revelando-se apática para com aquela pessoa dissuadida, é quase sufocante considerar tudo descolorido na existência de alguém. Seria possível não existir qualquer “cor” na vida daquele jovem? O fato é que se ele olhasse para trás, voltando sua atenção para aquela única “cor” o plano de desistir da vida poderia fracassar, logo ela desejou ardentemente que ele tivesse olhado para trás.

Na desordem de seus pensamentos, alarmou-se ao imaginar um possível arrependimento da parte do garoto, nesse ponto decidiu imediatamente concentrar-se em outro lugar.

Percebendo a amiga ali, do seu lado, chegou a uma conclusão: não, não era indiferente à sua vida e menos ainda às pessoas que fazem parte dela. Pensava nisso sem o intuito de lançar uma crítica aos suicidas, pensava como uma egoísta que usa os fatos de outrem como lição para a vida particular. Mas também se pôs no lugar do rapaz, e percebeu o quanto o compreendia e o quanto eram diferentes.

Voltando ao lugar em que estava antes de começar aquelas reflexões, agarrou o braço da amiga, respirou fundo, fechou os olhos e experimentou a satisfação por entender tudo aquilo, por sentir tudo o que sentia e exatamente como sentia: um sol queimando e uma vontade inexorável de ser feliz ali, exatamente onde estava.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O lado cortês da vida



Não tenho conhecimento de como, nem quando. Mas sempre suspeitei que a vida manifesta, utilizando-se de uma espécie de reprise, seu lado mais perverso e vingativo, ou sua face mais delicada e bondosa. Fricciona nas ventas de um e de outro: “lembras? Olha aqui, é o que mereces meu caro!”. 

Será que realmente colhemos o que plantamos? E se colhermos sem plantar, é possível que um pássaro descuidado tenha lançado uma semente em nossas vidas, sem a intenção de semeá-la?

Seguindo em linha reta, a vida dobra à direita, linha reta... Vai longe, não sai do lugar, apenas um passo; corre, anda; não chega; finca, pára, esquece. Mas lá está a esperança gélida... líquida... úmida. É esperança, apenas esperança, que de tanto esperar evaporou-se. Antes um sonho pedindo para ser concretizado; uma lembrança, um tal de esperar... E agora? Agora realidade!

Em um dia você pára e percebe: eu estou aqui! Como? No meu cantinho, acreditando que ter perspectivas é para quem não despertou, ou para quem não sentiu a dor de esperar nunca obtendo respostas. Agora vejo à minha frente, com as pontas dos dedos tocando: aquilo, aquela coisa, aquele lugar, aquela pessoa, aquela sensação!  Há quanto tempo decidi transformar tudo em nada?

Agora tudo é mais do que eu esperava, do que sempre esperei. Meu inconsciente agiu sozinho, não teve ao menos a decência de me avisar? Eu consegui quando já havia desistido. A vida então me mostra sua face delicada e bondosa. Pasmo!  Ela apanha mesmo de surpresa, não é?